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quarta-feira, 13 de julho de 2011

O TRIGO E O JOIO

            O ser humano é livre em suas escolhas e em suas decisões. É diferente dos demais seres. Eles são conduzidos e determinados pela lei do instinto, enquanto o ser humano é alimentado pela capacidade de discernimento entre o bem e o mal, entre o certo e o errado, entre o verdadeiro e o falso. Mesmo assim essas distinções irão depender do grau de instrução a que cada qual tem acesso.



            O mundo sempre esteve dividido entre bons e maus, entre santos e pecadores, entre os que semeiam o trigo e os que semeiam o joio. O trigo simboliza tudo aquilo que serve de alimento, de ensinamento e orientação para o bem. O joio simboliza tudo aquilo que representa ensinamentos e sugestões que iludem os inocentes mostrando-lhes que tudo é bom e tudo é permitido para alimentar a fantasia e satisfazer o prazer.
            Por mais que as igrejas se esforcem em mostrar caminhos e atitudes que mais aproximam de Deus, está mais do que claro que existem grupos e organizações elaborando programas que incentivam a liberdade total e a permissividade em todos os setores da vida. Iludem o público com a alegação de que tudo é válido e pode ser aproveitado ao máximo.
            É o joio que continua se espalhando e ampliando sua influência nas mentes, especialmente dos jovens. Incute-lhes que cada qual deve criar seu próprio mundo virtual e ocupar-se tão somente dele. Não haverá necessidade de conviver com os demais. A comunicação será sempre virtual. Assim ninguém poderá interferir ou questionar. Cada qual cria seu conteúdo ideológico, seus princípios intelectuais, suas normas morais e até sua religião.
            Não quer saber de opiniões e nem de palpites. O futuro não lhe interessa. O passado não o influencia. Já foi. Já aconteceu. É o agora que interessa. Não importam as conseqüências. Nem pensar nisso. É bem melhor aproveitar aquilo que lhe favorece, mesmo que seja ilusório. Afinal, a ilusão alivia as tensões e conduz para um estágio imaginário.
            Não precisa pensar e nem planejar tanto. O mundo da informática se encarrega de oferecer inúmeras opções. Cada uma melhor do que a outra. Cada uma mais atraente e mais fascinante. É o cartão de credito, é o face book, o orcut, o twiter, o msn. Todas maneiras atuais de olhar o mundo, intervir nas pessoas, aproveitando-se às vezes da sua ansiedade para iludi-las e explora-las.
            Esse é o joio que vai se infiltrando na mente e passa a confundir os valores da vida. Influencia de tal forma que chega a criar novas necessidades, novos desejos e novos sonhos. Tudo voltado para um possível sucesso e uma vida mais confortável e mais rica. Sonha um mundo grande. Alimenta grandes conquistas. É a infeliz ilusão.
            Outra lição que aparece nesta comparação entre o trigo e o joio é que enquanto uns poucos se esforçam em semear o trigo do amor fraterno, do respeito mutuo e da fé em Deus, outros espalham o joio da droga, do culto ao “eu”, da indiferença religiosa e do ateísmo.
            Contudo, é preciso acreditar que ainda é possível sonhar com um mundo melhor onde a justiça e a paz se abraçarão, o amor e a fé se confraternizarão e o ser humano se reencontrará na intimidade com seu Deus e Pai.
                  Frei Venildo Trevizan OFMCap

sábado, 9 de julho de 2011

Retiro Provincial 2011


SEMEAR

            Alguém que tenha experiência de vida no campo e na lavoura sabe que o semear faz parte da lida diária para garantir a sobrevivência pessoal e adquirir bens duradouros. Sabe que semeando estará colaborando para o progresso e enriquecimento da sociedade. Sabe que ao semear será necessário aguardar o devido tempo para a germinação, crescimento, produção e maturação. Só então será possível a colheita.
            Não pensa em semear hoje para colher a manhã. Não pensa em semear em qualquer época ou em qualquer terreno. Tudo tem seu tempo, seu ambiente e seu lugar. E é preciso semear. E semear boa semente para garantir farta colheita. Pois só colhe daquilo que semear. Não queira semear arroz para colher trigo, ou semear feijão para colher milho.
            A sabedoria da Bíblia Sagrada convida a refletir seriamente sobre o sentido e o valor do semear. O profeta Oséias no capitulo 8, versículo 7 diz: “quem semeia ventos colhe tempestades”. Isto é, daquilo que semear haverá de colher. Muitos são os que sonham colher bons frutos, mas esquecem de semear.
            Muitos gostariam se sentirem amados, mas não semeiam amor. Muitos sonham ter paz em seu coração, mas não semeiam. Muitos gostariam partilhar alegrias, sonhos, realizações, mas não semeiam aquilo que poderia contribuir.
            Quem semeia não tem pressa. Sabe que está preparando o dia de amanhã. Na carta aos Gálatas Paulo diz: “O que o homem semeia, isso colherá: quem semeia nos instintos egoístas, colherá corrupção; quem semeia no espírito, do espírito colherá  vida eterna” (Gal.6,7-8)
            O Mestre dos mestres é quem revela o grande e verdadeiro semeador: o Pai do céu. É ele o amável e generoso semeador. Possui sementes de toda espécie e em quantidade suficiente para satisfazer a todos. Semeia continuamente e não escolhe terreno algum. Seja um coração ressequido pelo ódio, seja um coração sufocado pela decepção, seja um coração instável e indefinido, ou seja um coração amável e saudável
            Todos recebem as mesmas sementes, as mesmas luzes e as mesmas bênçãos. Pois a generosidade do semeador não se deixa a bater por nada e por ninguém. Quem resistir ou quem se mostrar indiferente ou contrariado continuará recebendo boas sementes. Pois um coração que é bom só possui o bem para semear.
            Um coração feliz só tem felicidade para semear. Um coração que ama só tem amor para semear. Um coração que vive alegre só tem alegria para semear.
            E se ainda existem ambientes e corações amargurados é porque os bons se acomodaram e não se tocaram para perceber o quanto de valor estão perdendo. Existem muitos cristãos que se aposentaram na fé. E passaram a fazer parte da lista daqueles e daquelas que só encontram argumentos para lamentar a vida, comentar defeitos de quem dispõe de forças em fazer algo de bom aos corações e semblantes castigados pela fome e pela miséria.
            Mas ainda existem mãos generosas semeando amor nos corações feridos pela dor. Ainda existem mãos generosas semeando esperança nos corações inquietos pelo medo. Ainda existem mãos generosas semeando alegria em tantas faces feridas pela tristeza. Ainda existem mãos generosas semeando vida e paz para todos.

Frei Venildo Trevizan OFMCap

sábado, 2 de julho de 2011

QUEM EU SOU?

            Cada ser humano elabora um conceito de si mesmo muito próprio. E passa a trabalhar e a conviver a partir desse conceito, ou de uma certa imagem, que criou e se esforçou em comunicar a quem participa de sua vida e de sua convivência. Isso pode até provocar alguns conflitos entre o que pensa de si e o que outros pensam a seu respeito.
            Por falar em outros, é importante cada qual, prestar atenção também ao que acontece a seu redor. Há uma diferença fundamental entre “quem sou eu” e “quem eu sou”. A primeira depende do conceito que cada qual elabora de si. E a segunda depende do que outros pensam e conseguem desvendar e elaborar a seu respeito.
            O Mestre dos mestres na sua contagiante sabedoria interpelou certa feita seus seguidores perguntando: “Para vocês, quem eu sou”? Bem sabia que na mente desses seguidores havia uma imagem a seu respeito nada coerente com aquela que ele queria revelar. Eles viam nele uma esperança política. Acreditavam que estaria organizando um governo com armas e exércitos suficientes para mudar a situação deprimente em que o povo se encontrava.
            Esperavam um grande e poderoso messias, libertador dos oprimidos e construtor de um novo reino e uma nova sociedade. Hoje também muitos são os que vêem nele um homem excepcional, um grande mestre, um grande sábio, sensível ao sofrimento humano, atento aos pobres a ponto de aceitar entregar a própria vida para a salvação de todos. Continuam admirando suas atitudes e seus gestos marcados por um profundo amor e uma extraordinária misericórdia.
            E não passam disso. Esquecem de ver nele aquele que realmente é. Não existiu e não existirá ninguém como ele. Os profetas foram homens corajosos, mas não foram salvadores. Prepararam a vinda dele, mas não eram o messias esperado das nações. Só ele é esse Messias e esse Salvador que veio na simplicidade de um ser humano para revelar o amor de um Deus compassivo e compreensivo.
            Nos arquivos da história da humanidade encontram-se relatos de grandes heróis venerados por seu povo. Homens e mulheres que praticaram gestos extraordinários e que conquistaram a independência e liberdade para seu povo. Homens e mulheres que realizaram descobertas fantásticas e muito úteis para a humanidade no campo da saúde, da ciência, da arte e de tantos outros setores da vida humana.
            Tudo isso é louvável e grandioso. Mas Jesus Cristo não pode ser visto e admirado simplesmente como um desses grandes homens, como um sábio e inteligente líder, como alguém que marcou a humanidade com sua personalidade e com a persuasão de suas idéias e de seus projetos. Ele precisa ser visto como alguém especial. Alguém, não como resultado de opiniões, mas como fruto de convicções.
            Para elaborar um conceito real e verdadeiro a seu respeito será preciso examinar em profundidade seus ensinamentos, e sua programação de vida. Não confiar naquilo que a mídia difunde e confunde. É preciso respeito pelo sagrado, equilíbrio no julgar, bom senso no interpretar e seriedade no pesquisar.
                                                                             

Frei Venildo Trevizan OFMCap